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PARQUE DENNER – Retrato do abandono

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DÉLIO ANDRADE
DÉLIO ANDRADEhttps://planaltonews.com.br
Jornalista, sob o Registro número 0012243/DF

Localizado entre a QE 40, o Polo de Moda e a Colônia Agrícola Bernardo Sayão, o Parque Denner foi criado para preservar uma das nascentes que alimentam o Córrego Vicente Pires e oferecer lazer, esporte e contato com o Cerrado para uma região cada vez mais urbanizada. Hoje, porém, a realidade está longe desse propósito.
O espaço, que deveria ser um oásis de qualidade de vida para milhares de moradores do Guará II, enfrenta uma série de problemas que vão da falta de segurança ao abandono da infraestrutura. Cercas destruídas, iluminação deficiente, lixo, lago poluído, invasão de área pública, acampamentos de pessoas em situação de rua, presença de usuários de drogas, furtos constantes de animais, ausência de banheiros e deficiência na manutenção transformaram o parque em motivo de preocupação para a comunidade.

Apesar do cenário, um pequeno grupo de moradores se recusa a abandonar o local. Entre eles está o aposentado Edivalcir Peixoto, conhecido como Seu Edir, considerado pelos frequentadores o verdadeiro Guardião do Parque Denner. Há mais de 16 anos, ele dedica boa parte do seu tempo à limpeza, irrigação das árvores, alimentação dos animais e preservação da nascente, sem qualquer remuneração. Para ele, a situação do parque piorou nos últimos anos, principalmente após a transferência da gestão do Instituto Brasília Ambiental (Ibram) para a Administração Regional do Guará. “Precisamos preservar a nascente. Ela não está sendo cuidada. Antes havia guarda permanente aqui. Hoje não temos mais segurança. Acontecem constantemente furtos de celulares e o consumo e comercialização de drogas no local aumentou”, relata.
Segundo Seu Edir, o cercamento retirado durante obras nunca foi recomposto. Em alguns trechos, quase cem metros permanecem completamente abertos, facilitando invasões, furtos e a instalação de barracos improvisados. Outro problema apontado é o desaparecimento dos animais que vivem no parque. Além disso, ele alerta para a presença de ratazanas, formigueiros, lixo e para a necessidade urgente de uma ação dos orgaos ambientais e de um estudo técnico para avaliar a qualidade da água do lago.

“Havia cerca de vinte patos. Hoje restam apenas cinco. Muitos acabam sendo furtados. O mesmo acontece com peixes, jabutis e tartarugas”, afirma seu Edir, voluntário assíduo do parque

Moradores indignados

Quem também acompanha diariamente a situação é Alessandra Sazaki, frequentadora do parque há mais de dez anos. Ela afirma que os moradores nunca foram efetivamente ouvidos nas decisões sobre o espaço e que a manutenção depende quase exclusivamente do trabalho voluntário. “Eu, Seu Edir e mais alguns moradores alimentamos os animais, limpamos o parque e fazemos aquilo que deveria ser responsabilidade do poder público. Tudo sai do nosso bolso.” Para Alessandra, antes de grandes intervenções urbanísticas, o parque precisa receber investimentos em questões básicas. “O que falta é grade, vigilância, manutenção, limpeza, uma administração presente e apoio para quem já cuida do parque.” Ela demonstra preocupação com propostas que possam descaracterizar o perfil ambiental do Denner. “Antes de construir decks ou outras estruturas, precisamos preservar aquilo que já existe.”
A moradora Maria Medianeira compartilha da mesma preocupação. Frequentadora do parque, ela afirma que evita caminhar em determinados horários por causa da insegurança. “O parque precisa ser mais cuidado. Tem muito mato alto, falta manutenção e segurança. Os patos estão desaparecendo e hoje já existem pessoas acampadas dentro do parque.” Segundo ela, o cercamento e a presença permanente de vigilância seriam fundamentais para devolver tranquilidade aos frequentadores.
Do ponto de vista ambiental, o biólogo e professor José Vieira da Silva chama atenção para a necessidade de preservar a nascente e recuperar o lago. “O Parque Denner é qualidade de vida. É nosso ponto de encontro, nosso espaço de convivência. Mas precisamos de uma biorremediação para reduzir a poluição do lago, de campanhas de conscientização e de investimentos permanentes.” Vieira também defende a implantação da Rede de Vizinhos Protegidos, policiamento fixo e maior integração entre comunidade e poder público para garantir segurança e preservação ambiental. A precariedade da infraestrutura também afeta quem utiliza o parque para atividades esportivas.
O professor Neto, responsável por uma escola de futevôlei instalada no local, afirma que durante mais de um ano as atividades noturnas precisaram ser suspensas porque a iluminação permanecia desligada à noite e ligada durante o dia. “A gente precisa de banheiros, chuveiros, iluminação funcionando corretamente, poda das árvores e manutenção constante. Hoje muita coisa só acontece porque nós mesmos cuidamos.”
Situação semelhante é relatada pelo professor Claudemir Martins Neto, conhecido como Coroa. Há mais de cinco anos utilizando as quadras do parque, ele afirma que os próprios esportistas custeiam parte da manutenção. “Fizemos reservatório de água, cercamos a quadra e cuidamos da areia. Mas falta apoio do governo para cortar o mato, repor areia e melhorar a infraestrutura.”
Além dos problemas estruturais, moradores denunciam a ocupação irregular de área pública, inclusive com a instalação de um quiosque dentro do parque, situação que defendem ser analisada pelos órgãos competentes.
Enquanto isso, o lago continua sem monitoramento da qualidade da água, a nascente permanece vulnerável e a falta de infraestrutura compromete a utilização do espaço por crianças, idosos e famílias.
Entre as principais reivindicações da comunidade estão a medição dos índices de contaminação do lago, a conclusão da pista de cooper para proteger a nascente, a instalação de pontos de água para irrigação das árvores, banheiros públicos, recomposição completa das cercas, definição de horário de funcionamento, implantação de policiamento fixo, campanhas permanentes de educação ambiental e um novo parquinho infantil.

Projeto aprovado, mas parado
Em dezembro de 2025, uma importante esperança surgiu com a aprovação, pelo Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do Distrito Federal (Conplan), do Plano de Ocupação do Parque Denner. O projeto prevê requalificação da área, recuperação da iluminação, instalação de banheiros, playground, skatepark, ciclovia, guarita, posto de apoio da Polícia Militar, bicicletário, quadras esportivas e melhorias paisagísticas.
Para os frequentadores, entretanto, a revitalização somente será completa se vier acompanhada de manutenção permanente, segurança efetiva e gestão participativa.
Mais do que um espaço de lazer, o Parque Denner representa um patrimônio ambiental do Guará. Preservar sua nascente, proteger sua fauna, recuperar sua infraestrutura e devolver segurança aos frequentadores significa garantir qualidade de vida para milhares de moradores que enxergam naquele pedaço de Cerrado um dos últimos refúgios verdes da região.

O que diz a Administração Regional do Guará
A Administração Regional do Guará informa que o Parque Denner receberá, no início da próxima semana, um mutirão de limpeza executado pela Divisão de Obras da Administração Regional do Guará, em parceria com a Novacap.
“A ação tem como objetivo reforçar a conservação, a limpeza e a manutenção de um dos mais importantes espaços de lazer, convivência e qualidade de vida da população da região.
Além disso, estão previstos para os próximos meses uma série de investimentos estruturais por parte do Governo do Distrito Federal, que proporcionarão ainda mais qualidade, segurança e bem-estar aos frequentadores do parque, fortalecendo seu papel como espaço de esporte, lazer e integração para os moradores do Guará”, diz a nota.

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