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terça-feira, abril 16, 2024
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Amazônia, como o corpo humano, pode ter falência múltipla de órgãos

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DÉLIO ANDRADE
DÉLIO ANDRADEhttp://delioandrade.com.br
Jornalista, sob o Registro número 0012243/DF

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Na semana passada, pesquisadores brasileiros publicaram na prestigiosa revista Nature um estudo estimando que, a partir de 2050, até metade da Amazônia pode estar sob tamanho estresse climático que poderia atingir o temido ponto de não retorno. A data e a expressão “colapso” ganharam o noticiário brasileiro e estrangeiro, em alguns casos em tom alarmista. É compreensível. A Amazônia poder entrar em um processo de colapso em 25 anos deveria ser motivo para tirar o sono de todo mundo. 

Mas entendo que, mais do que colocarem um prazo para isso acontecer, os pesquisadores buscaram mapear quais são as múltiplas pressões que podem levar a esse ponto, como a combinação delas pode ter um efeito cascata, com uma coisa impulsionando a outra, e, acima de tudo, o que dá para fazer a respeito a fim de evitar que se chegue lá. É nisso que vou me atentar nesta coluna.

Não é de hoje que tentar estabelecer quanto e até quando a maior floresta tropical do mundo ainda é capaz de resistir aos impactos que vem sofrendo antes de passar por transformações profundas e sem volta é um dos maiores desafios – e também preocupações – de cientistas que estudam a Amazônia. 

A partir do tal ponto de não retorno, ela perderia suas características funcionais primordiais e a capacidade de prestar serviços ambientais, como a produção de chuvas e a absorção de gás carbônico.

Os primeiros alertas de que uma combinação de desmatamento com mudanças climáticas poderia levar a esse cenário crítico já datam de mais de 20 anos. O climatologista Carlos Nobre foi o primeiro a apontar que uma perda de 20% a 25% da cobertura original associada a um aumento da temperatura de cerca de 2 ºC poderia ser a receita para iniciar um processo de colapso sistêmico. 

De lá para cá, várias outras pesquisas aprofundaram esse conhecimento. Uma das mais impactantes, liderada pela pesquisadora Luciana Gatti e lançada em 2021, apontou que as partes mais desmatadas da Amazônia, onde a perda de vegetação chega a 30%, já emitem mais carbono do que absorvem – um sinal de que, ao menos localmente, o ponto de não retorno já pode estar sendo alcançado. 

Gatti continuou a investigação e constatou que nos primeiros anos do governo de Jair Bolsonaro, quando o desmatamento da Amazônia disparou, esse impacto se acentuou, e as emissões da floresta cresceram de modo preocupante. Para ela, Bolsonaro teve o efeito devastador de um El Niño sobre a floresta.

Uma das dúvidas que ficaram é o que esses efeitos já sentidos dizem sobre o funcionamento do resto da floresta. E, ainda mais importante: o que eles dizem para as ações de conservação. É possível interromper esse processo? 

O trabalho divulgado na semana passada – liderado pelos pesquisadores Bernardo Flores e Marina Hirota, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e coassinado por outros 22 cientistas do Brasil e do exterior, entre eles Nobre e Gatti – traz um pouco mais de ingredientes para esse caldeirão. Os cientistas avaliam os múltiplos fatores de estresse a que a região está submetida – como desmatamento, aumento da temperatura, secas extremas e fogo – e como eles se retroalimentam. 

Combinando informações espaciais desses distúrbios, que atingem a Amazônia mesmo em suas porções mais preservadas, os pesquisadores estimaram que até 2050 de 10% a 47% da floresta que ainda está de pé pode estar exposta a uma “composição de distúrbios que podem desencadear transições inesperadas no ecossistema e, potencialmente, exacerbar as alterações climáticas regionais”, conforme escrevem na introdução do artigo.

É um jeitão todo trabalhado no “cientifiquês” de fazer uma previsão cercada de incertezas, mas que, pela primeira vez tenta colocar uma referência no tempo de quando as coisas podem começar a desandar se: 

Não ocorrer uma derrubada brutal nas emissões de gases de efeito estufa e o planeta seguir aquecendo e; 

Se o processo de desmatamento não for realmente zerado.

Conversei com Bernardo Flores e Marina Hirota para entender melhor quão preocupado a gente deveria ficar diante do estudo deles.

“O que a gente mostra não é que a Amazônia vai chegar em 2050 num ponto de não retorno, mas é que, até 2050, a gente pode perder de 10% a 47% das florestas como elas são hoje. É ampla essa variação, mas também porque há muita incerteza. Mas a gente considerou vários fatores juntos. E quando a gente olha para todos eles, até 2050, a gente vai perder muitas florestas. E, perdendo essas florestas, a gente entraria, possivelmente, num ponto de não retorno”, explicou Flores.

Mas mais importante do que a data em si, disse Hirota, é que a coisa pode degringolar a partir de vários pontos diferentes. “Mais certo do que o 2050 é que o ponto de não retorno potencialmente vai acontecer de forma bastante heterogênea em momentos diferentes, em lugares diferentes da Amazônia”, afirma a pesquisadora. 

A ideia original do Carlos Nobre era que, ao atingir um determinado marco – a perda da floresta chegar a 25% da cobertura original, por exemplo –, seria desencadeado um processo sistêmico de colapso a partir do arco do desmatamento (faixa que vai do sudeste, no Pará, passando pelo Mato Grosso, até a divisa entre Amazonas, Acre e Rondônia). 

Mas o que os cientistas concluíram agora é que mesmo lugares ainda bastante preservados, como as florestas a oeste da região, também estão sendo impactados pelas secas extremas e pelo fogo, como vimos no ano passado (e estamos vendo nesta semana em Roraima, em uma área de densas florestas). 

Esses impactos têm mais a ver com as mudanças climáticas, que intensificam fenômenos naturais, como o El Niño. Tudo isso junto fragiliza a floresta.

De acordo com o novo estudo, em milhões de anos de evolução, as diferentes composições florestais que se espalham pelo que conhecemos como Amazônia se mantiveram relativamente resilientes à variabilidade climática pela qual passou o planeta, inclusive pela era do gelo. Mas agora o estresse é tamanho que pode acelerar o processo de degradação a partir dos vários pontos já afetados.

“Tem ponto que já foi alterado. Isso pode se espalhar pela Amazônia para todos os lados, de uma forma circular, em diferentes pontos, por causa de diferentes fatores, e, no final das contas, o que vai acontecer é que a gente pode ter um colapso sistêmico, a partir de diferentes pontos que vão mudando”, disse Hirota.

Ela compara a Amazônia ao corpo humano. 

“Imagina que cada sub-região da Amazônia, como o nordeste da Amazônia, onde fica a Ilha de Marajó; o oeste, na fronteira com o Peru; o sul, no Mato Grosso; o centro, no Amazonas, são locais bastante diferentes. Nosso corpo também tem vários órgãos: rins, estômago, intestino, coração, certo? Imagina o que faz mal para os rins. A falta de água, por exemplo. Eles podem parar de funcionar. Com isso, outros órgãos podem ser afetados. Aí imagina que a pessoa, ao mesmo tempo, comece a sofrer do fígado. Cada órgão tem uma conectividade com outros órgãos, maior ou menor. Mesma coisa na Amazônia. Há uma heterogeneidade. Uma região sendo afetada por desmatamento, outra por fogo, outra por aumento de temperatura, por diminuição de chuva. Podem todos falhar”, alerta Hirota.

Mas é claro que no corpo humano alguns órgãos podem ter problema e ainda assim a gente tratar e ficar tudo bem. “No trabalho a gente mostra a mesma coisa. Algumas regiões podem sofrer uma mudança no seu funcionamento, mas não afetar tudo. Ainda cabem soluções, ações para frear isso. A gente pode ter um tipping point [o ponto de não retorno] local, mas a forma que a bacia amazônica inteira funciona não é dependente de só um lugar, e podemos ter ações contundentes. Mas, se vários órgãos estiverem comprometidos, é mais difícil evitar um tipping point sistêmico. Aí é a falência múltipla de órgãos”, explica a pesquisadora.

No final, a mensagem que os pesquisadores buscam passar é que é preciso atuar de todas as formas para evitar que isso aconteça. Manter a Amazônia resiliente vai depender de uma combinação de esforços locais – para conter o desmatamento e a degradação e para expandir a restauração florestal –, com esforços globais para conter as emissões de gases de efeito estufa.

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